Metodologia Analítica em Química Clínica: Líquida e Seca
- Carlos Wallace

- 14 de jan.
- 5 min de leitura

A química clínica, também denominada bioquímica clínica, é responsável pela análise de constituintes químicos presentes em fluidos biológicos, como sangue, urina, líquor e outros. Esses constituintes incluem eletrólitos, metabólitos, enzimas, proteínas, hormônios e fármacos, cujas variações refletem alterações fisiológicas e patológicas do organismo humano.
Historicamente, a evolução da química clínica acompanhou o avanço da instrumentação analítica e da automação laboratorial. Métodos manuais baseados em titulações, precipitações e reações colorimétricas deram lugar a sistemas automatizados de alta produtividade, precisão e rastreabilidade. Nesse contexto, consolidaram-se duas grandes vertentes metodológicas: a química líquida, baseada em reações químicas realizadas em meio líquido, e a química seca, que utiliza reagentes incorporados a suportes sólidos.
A escolha entre essas metodologias não é trivial e envolve fatores técnicos, econômicos, logísticos e clínicos, além da estratégia de negócio. Assim, compreender profundamente seus princípios e aplicações é essencial para a gestão da qualidade, tomada de decisão analítica e interpretação correta dos resultados laboratoriais.
Panorama Histórico da Química Clínica
A química clínica iniciou-se no século XIX, com métodos rudimentares voltados principalmente à detecção de glicose e proteínas na urina. O desenvolvimento da espectrofotometria no século XX representou um marco, permitindo medições quantitativas baseadas na absorção de luz.
Na década de 1950, surgiram os primeiros analisadores automáticos de química líquida, como o AutoAnalyzer, que revolucionaram a rotina laboratorial ao permitir análises em série com maior reprodutibilidade. Posteriormente, avanços em microeletrônica, robótica e informática impulsionaram a automação total dos laboratórios centrais.

A química seca, por sua vez, ganhou destaque a partir da década de 1970, especialmente com o desenvolvimento de tiras reagentes e sistemas de camadas múltiplas (multilayer slides). Essa metodologia foi inicialmente associada a testes rápidos e point-of-care testing (POCT), mas evoluiu para sistemas robustos capazes de atender demandas clínicas relevantes.
Conceitos Fundamentais de Metodologia Analítica
Metodologia analítica pode ser definida como o conjunto de princípios, técnicas e procedimentos empregados para identificar e quantificar analitos em uma amostra. No contexto da química clínica, uma metodologia deve atender a requisitos fundamentais, como exatidão, precisão, sensibilidade, especificidade, linearidade, robustez e rastreabilidade metrológica.
Esses parâmetros são essenciais para garantir que os resultados produzidos pelo laboratório sejam clinicamente válidos e comparáveis ao longo do tempo e entre diferentes instituições.
Química Líquida
A química líquida é uma metodologia analítica na qual as reações químicas ocorrem em meio líquido, geralmente em cubetas ou poços de reação, utilizando reagentes líquidos que entram em contato direto com a amostra biológica.
Os princípios analíticos mais comuns incluem:
Colorimetria
Espectrofotometria
Turbidimetria
Nefelometria
Enzimologia cinética
Potenciometria (em alguns sistemas integrados)
A intensidade da reação química é proporcional à concentração do analito, sendo medida por detectores ópticos ou eletroquímicos.
Etapas do Processo Analítico
A metodologia de química líquida envolve diversas etapas críticas:
Pipetagem da amostra
Adição de reagentes
Incubação
Leitura do sinal analítico
Cálculo e validação do resultado
Cada uma dessas etapas pode ser fonte de variabilidade, exigindo rigoroso controle operacional e manutenção dos equipamentos.
Tipos de Reações Utilizadas
As reações em química líquida podem ser classificadas em:
Reações de ponto final: leitura após estabilização da reação
Reações cinéticas: monitoramento contínuo da velocidade da reação
Reações em duas etapas: com reagente inicial e reagente de disparo
Exemplos clássicos incluem a dosagem de glicose por método enzimático (glicose oxidase ou hexoquinase) e a dosagem de ureia por método enzimático com urease.
Vantagens da Química Líquida
Alta flexibilidade metodológica
Ampla variedade de analitos disponíveis
Elevada sensibilidade analítica
Facilidade de validação e customização
Integração com sistemas automatizados de grande porte
Limitações da Química Líquida
Maior consumo de reagentes
Necessidade de infraestrutura complexa
Suscetibilidade a interferências pré-analíticas
Maior impacto de falhas mecânicas
Necessidade de manutenção frequente
Química Seca
A química seca é uma metodologia analítica baseada na utilização de reagentes incorporados a uma fase sólida, geralmente em forma de tiras reagentes, cartuchos ou lâminas (slides) multicamadas. A amostra é aplicada diretamente sobre o suporte sólido, onde ocorre a reação química.
O princípio de detecção mais comum é a reflectância, na qual a intensidade da luz refletida pela superfície reagente é inversamente proporcional à concentração do analito.

Estrutura dos Sistemas de Química Seca
Sistemas avançados de química seca utilizam lâminas com múltiplas camadas, incluindo:
Camada de espalhamento (spreading layer)
Camada reagente (reagent layer)
Camada indicadora (indicator layer)
Camada de suporte (support layer)
Essa arquitetura permite controle preciso da reação e minimiza interferências externas.
Obs.: Alguns slides possuem a camada de mascaramento (scavenger/masking layer) que serve para minimizar/suprimir interferentes como hemólise em alguns ensaios, antes de ocorrer a reação.
Etapas do Processo Analítico
Aplicação da amostra
Difusão do analito pelas camadas
Reação química localizada
Leitura óptica por reflectância
Conversão do sinal em concentração
Vantagens da Química Seca
Menor consumo de reagentes
Redução de resíduos líquidos
Menor manutenção dos equipamentos
Maior robustez operacional
Limitações da Química Seca
Menor flexibilidade metodológica
Custo unitário elevado por teste
Dependência do fabricante
Menor gama de analitos disponíveis
Limitações em análises de alta complexidade
Comparação Entre Química Líquida e Química Seca
Aspecto | Química Líquida | Química Seca |
Meio reacional | Líquido | Sólido |
Consumo de reagentes | Alto | Baixo |
Flexibilidade | Alta | Limitada |
Manutenção | Elevada | Reduzida |
Aplicabilidade | Laboratórios centrais | POCT e rotina básica |
Controle de Qualidade e Validação
Ambas as metodologias exigem rigoroso controle de qualidade interno e externo. Parâmetros como precisão, exatidão, linearidade, limite de detecção e interferências devem ser avaliados durante a validação e monitorados continuamente.
A química líquida, por sua complexidade, apresenta maior número de pontos críticos, enquanto a química seca depende fortemente da estabilidade do suporte sólido e das condições ambientais.
Conclusão
A química líquida e a química seca representam abordagens complementares dentro da química clínica moderna. A escolha adequada da metodologia deve considerar não apenas aspectos analíticos, mas também estratégicos, operacionais e clínicos. O domínio técnico dessas metodologias é essencial para garantir a qualidade e a segurança dos resultados laboratoriais.
Referências
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