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Metodologia Analítica em Química Clínica: Líquida e Seca

A química clínica, também denominada bioquímica clínica, é responsável pela análise de constituintes químicos presentes em fluidos biológicos, como sangue, urina, líquor e outros. Esses constituintes incluem eletrólitos, metabólitos, enzimas, proteínas, hormônios e fármacos, cujas variações refletem alterações fisiológicas e patológicas do organismo humano.

Historicamente, a evolução da química clínica acompanhou o avanço da instrumentação analítica e da automação laboratorial. Métodos manuais baseados em titulações, precipitações e reações colorimétricas deram lugar a sistemas automatizados de alta produtividade, precisão e rastreabilidade. Nesse contexto, consolidaram-se duas grandes vertentes metodológicas: a química líquida, baseada em reações químicas realizadas em meio líquido, e a química seca, que utiliza reagentes incorporados a suportes sólidos.

A escolha entre essas metodologias não é trivial e envolve fatores técnicos, econômicos, logísticos e clínicos, além da estratégia de negócio. Assim, compreender profundamente seus princípios e aplicações é essencial para a gestão da qualidade, tomada de decisão analítica e interpretação correta dos resultados laboratoriais.


Panorama Histórico da Química Clínica

A química clínica iniciou-se no século XIX, com métodos rudimentares voltados principalmente à detecção de glicose e proteínas na urina. O desenvolvimento da espectrofotometria no século XX representou um marco, permitindo medições quantitativas baseadas na absorção de luz.

Na década de 1950, surgiram os primeiros analisadores automáticos de química líquida, como o AutoAnalyzer, que revolucionaram a rotina laboratorial ao permitir análises em série com maior reprodutibilidade. Posteriormente, avanços em microeletrônica, robótica e informática impulsionaram a automação total dos laboratórios centrais.

Auto Analyzer criado em 1957. Fonte: Van Staden, Jacobus (Koos), 2015.

A química seca, por sua vez, ganhou destaque a partir da década de 1970, especialmente com o desenvolvimento de tiras reagentes e sistemas de camadas múltiplas (multilayer slides). Essa metodologia foi inicialmente associada a testes rápidos e point-of-care testing (POCT), mas evoluiu para sistemas robustos capazes de atender demandas clínicas relevantes.


Conceitos Fundamentais de Metodologia Analítica

Metodologia analítica pode ser definida como o conjunto de princípios, técnicas e procedimentos empregados para identificar e quantificar analitos em uma amostra. No contexto da química clínica, uma metodologia deve atender a requisitos fundamentais, como exatidão, precisão, sensibilidade, especificidade, linearidade, robustez e rastreabilidade metrológica.

Esses parâmetros são essenciais para garantir que os resultados produzidos pelo laboratório sejam clinicamente válidos e comparáveis ao longo do tempo e entre diferentes instituições.

Química Líquida


A química líquida é uma metodologia analítica na qual as reações químicas ocorrem em meio líquido, geralmente em cubetas ou poços de reação, utilizando reagentes líquidos que entram em contato direto com a amostra biológica.

Os princípios analíticos mais comuns incluem:

  • Colorimetria

  • Espectrofotometria

  • Turbidimetria

  • Nefelometria

  • Enzimologia cinética

  • Potenciometria (em alguns sistemas integrados)

A intensidade da reação química é proporcional à concentração do analito, sendo medida por detectores ópticos ou eletroquímicos.


Etapas do Processo Analítico

A metodologia de química líquida envolve diversas etapas críticas:

  1. Pipetagem da amostra

  2. Adição de reagentes

  3. Incubação

  4. Leitura do sinal analítico

  5. Cálculo e validação do resultado

Cada uma dessas etapas pode ser fonte de variabilidade, exigindo rigoroso controle operacional e manutenção dos equipamentos.


Tipos de Reações Utilizadas

As reações em química líquida podem ser classificadas em:

  • Reações de ponto final: leitura após estabilização da reação

  • Reações cinéticas: monitoramento contínuo da velocidade da reação

  • Reações em duas etapas: com reagente inicial e reagente de disparo

Exemplos clássicos incluem a dosagem de glicose por método enzimático (glicose oxidase ou hexoquinase) e a dosagem de ureia por método enzimático com urease.


Vantagens da Química Líquida

  • Alta flexibilidade metodológica

  • Ampla variedade de analitos disponíveis

  • Elevada sensibilidade analítica

  • Facilidade de validação e customização

  • Integração com sistemas automatizados de grande porte

Limitações da Química Líquida

  • Maior consumo de reagentes

  • Necessidade de infraestrutura complexa

  • Suscetibilidade a interferências pré-analíticas

  • Maior impacto de falhas mecânicas

  • Necessidade de manutenção frequente


Química Seca


A química seca é uma metodologia analítica baseada na utilização de reagentes incorporados a uma fase sólida, geralmente em forma de tiras reagentes, cartuchos ou lâminas (slides) multicamadas. A amostra é aplicada diretamente sobre o suporte sólido, onde ocorre a reação química.

O princípio de detecção mais comum é a reflectância, na qual a intensidade da luz refletida pela superfície reagente é inversamente proporcional à concentração do analito.


Metodologia de micro slides da plataforma Vitros. Fonte: OrthoClinicalDiagnostics.

Estrutura dos Sistemas de Química Seca

Sistemas avançados de química seca utilizam lâminas com múltiplas camadas, incluindo:

  • Camada de espalhamento (spreading layer)

  • Camada reagente (reagent layer)

  • Camada indicadora (indicator layer)

  • Camada de suporte (support layer)

Essa arquitetura permite controle preciso da reação e minimiza interferências externas.

Obs.: Alguns slides possuem a camada de mascaramento (scavenger/masking layer) que serve para minimizar/suprimir interferentes como hemólise em alguns ensaios, antes de ocorrer a reação.



Etapas do Processo Analítico

  1. Aplicação da amostra

  2. Difusão do analito pelas camadas

  3. Reação química localizada

  4. Leitura óptica por reflectância

  5. Conversão do sinal em concentração



Vantagens da Química Seca

  • Menor consumo de reagentes

  • Redução de resíduos líquidos

  • Menor manutenção dos equipamentos

  • Maior robustez operacional

Limitações da Química Seca

  • Menor flexibilidade metodológica

  • Custo unitário elevado por teste

  • Dependência do fabricante

  • Menor gama de analitos disponíveis

  • Limitações em análises de alta complexidade


Comparação Entre Química Líquida e Química Seca

Aspecto

Química Líquida

Química Seca

Meio reacional

Líquido

Sólido

Consumo de reagentes

Alto

Baixo

Flexibilidade

Alta

Limitada

Manutenção

Elevada

Reduzida

Aplicabilidade

Laboratórios centrais

POCT e rotina básica


Controle de Qualidade e Validação

Ambas as metodologias exigem rigoroso controle de qualidade interno e externo. Parâmetros como precisão, exatidão, linearidade, limite de detecção e interferências devem ser avaliados durante a validação e monitorados continuamente.

A química líquida, por sua complexidade, apresenta maior número de pontos críticos, enquanto a química seca depende fortemente da estabilidade do suporte sólido e das condições ambientais.


Conclusão

A química líquida e a química seca representam abordagens complementares dentro da química clínica moderna. A escolha adequada da metodologia deve considerar não apenas aspectos analíticos, mas também estratégicos, operacionais e clínicos. O domínio técnico dessas metodologias é essencial para garantir a qualidade e a segurança dos resultados laboratoriais.


Referências

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: Informação e documentação – Referências – Elaboração. Rio de Janeiro, 2018.

  • BURTIS, C. A.; ASHWOOD, E. R.; BRUNS, D. E. Tietz Fundamentals of Clinical Chemistry and Molecular Diagnostics. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2019.

  • HENRY, J. B. Clinical Diagnosis and Management by Laboratory Methods. 23. ed. Philadelphia: Saunders, 2017.

  • WESTGARD, J. O. Basic Method Validation. 4. ed. Madison: Westgard QC, 2018.

  • RIFAI, N.; HORVATH, A. R.; WITTWER, C. T. Tietz Textbook of Clinical Chemistry and Molecular Diagnostics. 6. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.

  • Van Staden, Jacobus (Koos). (2015). Analytical continuous flow systems. where two worlds collide! from gravimetry and test tubes to flow systems to fia to sia to pat and from orsat to control room to pat to tap. Revue Roumaine de Chimie; http://web.icf.ro/rrch/. 60. 403-414.

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